Estreei, por fim, a nova aerogare da cidade condal.
Cheguei stressado a correr e nem cheguei a apreciar devidamente a obra.
Enquanto discutimos se fazemos ou não, "nosaltres amics catalans" fazem mesmo.
Regresso agora com mais calma, sempre muito adiantado ao tempo, não vá o diabo tecê-las.
"Voo para Lisboa, porta B52", nome de música, óptimo para recordar.
Deslizo a maleta pelo chão de impecável granito claro, depois de me assaltarem a carteira, com 5 euros e trinta cents por uma água mineral de 1/4 de litro e uma sanduiche a saber a guardanapo. Sento-me nas cadeiras cinza e, no meu diário gráfico, traço uns riscos de um airbus, lá fora, com uma peculiar decoração de cauda às bolinhas cor de cinza.
18h15, um gupo de turistas, asiáticos, chega pela dita porta, ar cansado, muitas horas de voo, seguramente. Dóceis e disciplinados, como sempre. Imagem de marca.
Acto contínuo, o da frente, num gesto de lidança, vira-se para a fila e saca de uma protecção de rosto. O grupo repete o gesto e passa ordeira e pateticamente. Mascarados, nesta Europa crescentemente esquizofrénica.
Uma das senhoras referidas do meu piropo, bem-intencionado diga-se de passagem, do post de 17 de Julho, é agora a ministra da cultura...critérios socráticos...muito "refinados", é o que eu acho.
Esperamos todos que faça melhor trabalho do que o seu antecedente, do qual já ninguém se lembra o nome, o que é sempre um mau sinal. Tinha um ar de banqueiro...sim, isso tinha.
Entalado pela crise e... ... por duas eleições, o tema de hoje é o voto.
Esta conheço-a há já alguns anos, vem no Dicionário do Diabo (nome sugestivo!) de Amboise Pierce e sempre a achei terrívelmente premonitória, para mal dos nossos pecados. Diz mais ou menos assim:
(Definição de Voto): "Faculdade que o homem livre tem de fazer de si próprio um tonto e do seu país uma ruína".
Mais logo, a minha filhota mais nova começa sua escola formal
carregadinha de ilusões.
Nós, os pais, já começamos a sofrer, a listagem de materiais, a irritante plastificação dos livros, para a luta que aí vem, na crença estética de que as capas são as primeiras a "ir ao ar". E plastificadas, enfim, dão uma ar mais duradouro, eternizam o aspecto novo do livro. A imagem nova é muito importante na nossa cultura de consumo.
Quando estudava no secundário conheciam-se os perguiçosos pelo aspecto novo dos seus livros. Os tempos mudam.
Ah! E também se sofre com o prenchimento da papelada, alguma de duvidosa utilidade.(seis-documentos- seis)
A uma pergunta "Com quem brinca a sua filha?" ,contida num circunspecto questionário, apeteceu-me responder: "Brinca com o Peter Pan, com o Noddy, a Branca de Neve, a Hello Kitty e todas as personagens que a escola não é capaz de oferecer, para mal dos seus pecados. É lixado chegar ao fim da ilusão, da magia e da fantasia. Agora é tudo a sério. Quer dizer...tudo cinzentão. Vá catraia. Aguenta-te
Espirra-se nas redondezas e...entra-se em pânico neste tempo esquizofrénico de medos catastróficos. Parece que a viragem do milénio, e o "fim do mundo" , tantas vezes pré-anunciado, chegou com uma década de atraso.
Os meios de comunicação ajudam a ampliar a angústia, vivem aliás dos medos colectivos. A gulosa indústria farmaceutica agradece a tão cautos homens. Dantes dava jeito que fosse a meningite, mas com tão poucas crianças nascidas em Portugal, havia que alastrar a coisa, enfim...massificando.
Cartazes informativos dão as "boas vindas" na Universidade e nos sítios públicos. Ponha a mão à frente, lave as mãos...com sabão azul. Etc.
Entretanto a malta continua a ir à bola, coma descontração do costume.
E alguns, à missa também. Aqui a vantagem é que se podee aproveitar para a confissão e preparar o "passamento" para uma vida que os cristãos (como eu) acreditam que será bem melhor do que esta.
Pode ser que me engane...mas esta gripe trás água no bico.
Depois da doença das vacas loucas, da gripe aviária, é mais uma para o rol das doenças com que a humanidade vai tendo consciência da sua pequenez e da sua incapacidade perante supostas forças do destino...com alguns negócios por detrás.
Entretanto, lá longe, na Guatemala, teme-se, não a gripe A, mas a fome. Em breve, lutaremos por uma pica para os nossos rebentos, e para nós próprios, a troco de uns gordos Euros. Claro está. Ouvi na rádio que os homens das vacinas dizem que dá um resultadão. Salvos. Ufa.
Apanho a linha verde na avinguda Paral.lel e os sons que escuto, do músico, com uma enorme barriga "de cerveja", proeminente, e da sua companhante, vestida de preto, como se fosse para uma festa, reavivaram-me imediatamente a minha estadia na cidade condal de há cerca de uma década atrás, destapando a capa com que o tempo vai tapando os detalhes das nossas vida, as coisas que julgáramos inúteis.
Lembro-me da forma como fui percebendo a "ocupação" tácita, entre os pedintes músicos da linha verde, as estações onde desciam uns e subiam outros, depois de algumas brigas (assisti a algumas...terríveis), para consquistar o seu espaço económico.
Uma guerra, afinal, idêntica à das pessoas comuns, só que travada noutros campos de batalha.
Como o tempo passa. O metro e o ar abafado permanecem os mesmos, nesta Barcelona de inícios de Setembro, que me brinda com um estranho clima tropical. Não admira que os brasileiros gostem tanto da cidade.
A música entoa pelo ambiente abafadiço. Sai de uma concertina vermelha, com uma ponta do fole arremendada com fita cola providencial e um som a precisar de instrumento novo.
E uma camada de surro que só visto, a esconder o vermelho vivo, sobre uma camada de patine ,a fazer lembrar a camada de fumos de vela que escondem as cores (que sabemos serem originalmente mais vibrantes) da pintura religiosa barroca.
Este também é um quadro religioso, onde a alegria "profissional" do músico faz, mesmo assim, tilintar umas moeditas numa lata de um conhecido refrigerante americano, reciclado em mealheiro ocasional.
Troc...troc...troc...para o peculio sofrido e agradecido com uma vénia, feita mesmo para os que não contribuiram, naquela carruagem de metro alienada. A pobreza é assim, por vezes magnanime no trato com os outros...e com a forretice. Artista deve fazer-se pagar.
Barcelona, 4 de Setembro de 2009
Leonardo Charréu
observador de gentes
Foi na noite de terça para quarta.
Paula Moura Pinheiro, "pivot" do programa Câmara Clara" da RTP2 e Gabriela Canavilhas delegada do Ministério da Cultura na RA dos Açores, dissertavam sobre a cultura nas ilhas, com dois senhores lá do sítio, muito entendedores . Do que disseram não me lembro nada, da beleza das senhoras lembro-me de tudo...
Comemora-se hoje o dia nacional de França, país que aprendi a amar desde há muitos anos.
Iniciado na cultura francesa pela aprendizagem da língua, nas aulas de Francês da professora Maria da Luz, na saudosa escola Secundária da RARET, que marcou gerações de glorianos e glorianas, fui depois, descobrindo por mim próprio, ou induzido pelo circulo intelectualoide das Belas Artes do Porto, os poetas malditos: Artaud, Rimbaud, Baudelaire, a filosofia delicada de Bergson a escrita inolvidável de Malraux e de Saint-Exupery, para não falar nos magnificos e revolucionários impressionistas.
Aos vinte anos, um choque, irreparável, com a xenofobia francesa em terras além-pirenaicas.
Raramente vi tanta boçalidade e estupidez juntas como ali, naqueles lugarejos do sul de França onde, trabalhando em quintas agrícolas, procurava amealhar algum para pagar a faculdade naqueles finais de oitenta dificeis.
A ideia de que uma nação se espelha nos seus artistas é verdadeira, mas, tem.... nuances.
Pois aqueles franceses campónios deitavam sons pelo fundo das costas... ao balcão dos cafés, na fila do supermercado, na rua, e para além disso, com a maior descontração do mundo. Um concerto fedorento.
A irritação de ouvir e ver um casal de velhotes espantarem-se, numa praia de Biarritz, com o facto de em Portugal também haver faculdades, só foi ultrapassada, anos mais tarde, pelo roubo de catedral que um senhor árbitro (Marc Bata, de seu nome, lembram-se?) para com a nossa selecção e para com esse elegante principe do futebol que foi Rui Costa, expulsando-o do jogo, quando se dirigia para o banco de suplentes para ser substituído. Um escândalo e uima afronta inesquecível para quem ama o desporto rei.
Vinguei-me dos franceses com algumas tropelias suaves, como viajar constantemente em primeira, (incluindo uma célebre viagem TGV entre Paris Austerlitz e Lyon Perrache) com bilhete de inter-rail (que só dava para segunda) e fingir que não falava um corno de francês, para me safar da situação, quando o cansaço e o sono permitia sermos apanhados pelos senhores revisores da SNCF, escarrapachados nas poltronas magnificas das carruagens de primeira dos comboios franceses, sonhando com um dia em que os políticos de todos os países obrigariam todos os jovens a viajar gratuitamente pelo mundo... para se tornarem melhores cidadãos. Sonhar não custa "Alllons enfants...le jour de gloire est arrivé".
PS: Hoje estou de férias, por isso tive tempo para dois posts
Enfim... recriamos no nosso festival de folclore um casamento d´antigamente, daqueles que a rapaziada da minha geração ainda assistiu, podendo também fazer a comparação - com conhecimento de causa - com os exóticos e industriosos casamentos de hoje, servidos (ou não) por empresas externas, como os catterings, de facto muito "in", ou por mega restaurantes, mais ou menos especializados e que o ministro Teixeira quer muito justamente taxar, por pensar, com muita esperteza (por isso chegou a ministro), que aí circulam muitos milhões de aéreos fora de controlo.
Mas os noivos de hoje são uns pequenos príncipes mimados, com direito a uma viagem às caraíbas, ou, para quem não gostar da turbulência tropical, à terra do incorrigível Alberto "o desbocado".
Hoje, a fartura de marisco também já substituiu as bananas, definitivamente sem estatuto, após o baixo preço comercial lhe ditar o destino de "fruto dos pobres", quando dantes era o fruto dos riscos. Nada de espantar, pois ao bacalhau já aconteceu o mesmo, nos flops extraordinários da economia.
Mas dantes não era assim. O casamento na Glória começava uma semana antes e acabava uma semana depois. Os rituais dos familiares, as reuniões cordatas, em "casa com forno", as "procissões" das mulheres, com os enormes avios, a cozedura dos bolos de vários tipos e tamanhos (de erva doce, "do papelinho", pãos-de-ló, de todos os tamanhos e feitios, etc.) atraía a pequenada, como um íman, reforçado pelo cheiro inconfundível da doçaria fresca no ar.
Valendo-me da minha condição de menino, ia-me introduzindo nos quintais com ambiente casamenteiro e a solidariedade e o carinho com que outrora os mais velhos devotavam aos mais novos, tinha uma correspondência recíproca (pelo menos até à adolescência!). Assim, ía aos casamentos da família e era tolerado nos casamentos da vizinhança. Um luxo.
Apreciava, com particular atenção, a "edificação" do bolo da noiva, em pão de ló, de vários andares, decrescentes, barrado com creme feito com claras de ovo, em castelo, polvilhado com reluzentes bolinhas prateadas. Um prodígio arquitectónico a fazer lembrar as pirâmides do Egipto, mas sob o redondo. Este monumento não estava ao alcance de qualquer mão e ter uma mulher capaz de levantar uma obra destas era altamente apreciado nas familias. Era por si só um espectáculo assistir a este transporte, para a casa da boda: a madrinha, altiva, o bolo resplandecente, levado à cabeça, e a pequenada em turbilhão pelas ruas da aldeia de olhos postos naquele pedaço de doce supostamente celestial.
Chegado o dia, com a concertina entoando no ar as melodias costumeiras, lá se dirigia a comitiva em alegre reboliço para a igreja. Mas uma das partes mais inesquecíveis de todo este ritual, que hoje recordo com saudade, estava reservado para a parte final do casamento. Saídos da igreja os noivos e submetidos à fotografia da praxe pela "máquina de enfiar a cabeça", as madrinhas desatavam a atirar amendoas para a turba esfomeada, que impacientemente esperavam esta dádiva regular, a única goluseima para muitos.
Havia uma estúpida convicção, entre a pequenada, que as amendoas cor-de-rosa, verdes ou azuis, eram mais doces do que as de cor branca e lembro-me bem das lutas titânicas, dos empurrões e das rasteiras, para poder apanhar, do chão, entre terra, pó, pedrinhas e caganitas de cabra, o maior número de amendoas coloridas que pudesse. Quando mais ricas as posses dos familiares dos nubentes, mais amendoas esvoaçavam pelo ar. Um fartote.
Em chupanços prazenteiros vagarosos, entre dentes, íamos desgastando, lentamente, a parte cristalizada até à "plocha" de amendoim, o clímax final daquele prazer gustativo arqueológico.
No outro dia, atirei dois sacos de amendoas para o lixo. Tinham passado o prazo e hoje há guloseias mais competitivas para os pequenos principes e princesas que mimamos todos dos dias. Não sei se crescer assim, com muito, é mais saudável do que crescer com pouco, mas num certo sentido, gostei muito de crescer com pouco.
Leonardo Charréu, Évora, 14 de Julho de 2009
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