Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
Travassos

Foi um grande jogador de futebol, dizem as enciclopédias nativas do desporto rei.

Pois foi a alcunha atribuída ao Ti Silvestre Pote, pelos meus conterrâneos glorianos, provavelmente, mais pelo seu gosto do que pelo seu talento prático no jogo da bola.

Acompanhei-o no sábado à sua última morada, com saudade e com respeito pelos tempos em que debutava, com quinze anos acabados de fazer, na equipa de futebol salão que levava o sugestivo nome "Os Panteras" (Não confundir com a equipa do Major!) treinada pelo saudoso Ti Silvestre "Travassos".

Ti Silvestre mandava-nos ir "para cima deles" e eu, com pouco mais de um metro e meio, e com pouco mais de trinta quilos, nunca levei, por razões esquelético-musculares, aquelas indicações a peito. Ficava o incentivo. Ganhavamos jogos e perdíamos outros naqueles finais de setenta, inícios de oitenta, em que o mundo parecia ser um sítio melhor para viver.

Numa altura em que se faziam torneios com cerca de trinta equipas e em que, literalmente, uma parte da população máscula fazia alegremente chiar sapatilhas de trapo "Sanjo" no cimento do ringue polidesportivo, construído numa época em que se acreditava e se realizavam (!) utopias: o ringue tinha sido construído colectivamente pela população.

Lembro-me de ir buscar, com os meus companheiros da bola, às costas, a vedação metálica às oficinas da RARET, em alegre passeio nocturno, de mais de dois kilómetros, debaixo de um luar inesquecível, entre os cheiros a esteva e a rosmaninho.

Hoje, já quase ninguém se move por grandes ou até mesmo por pequenas causas colectivas. É pena.

 



publicado por ensinartes às 01:46
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Domingo, 17 de Janeiro de 2010
Um trovão ao contrário

Algures, num país pobre das caraíbas, a face implacável da natureza  deu-se mais uma vez a conhecer. Negros esbranquiçados pelo pó, mortos aos milhares, amontoados pelas ruas numa visão contemporânea dos campos de extermínio nazis.

Uns dias antes, a terra tinha tremido em Portugal numa madrugada do último Dezembro. Acordado àquela hora tardia assustei-me com  a tremideira, por mais ligeira que tivesse sido. O que mais me impressionou até nem foi a trepidação. Quando vivi no nº 537 da Rua da Alegria da cidade invicta, num vetusto casarão transformado em residência universitária, todo aquele edifício tremia com a passagem do autocarro 20 dos STCP e demorei uns bons meses a habituar-me àquilo.

 

O que mais me impressionou em Dezembro foi o som emanado pelo fenómeno, uma espécie de trovão, seco e abafado vindo das entranhas da terra.

Soou a aviso. E da mesma forma como o tremor de terra de Lisboa impressionou a intelectualidade europeia dos finais do século XVIII, este também deveria, em princípio...provocar o mesmo efeito. Em particular, sublinhando a pequenez do homem perante forças que lhe são infinitamente superiores. Mas tal não aconteceu. Este homo que transitou do século passado para o novo século acha que nada o derrota...Nem os trovões vindos de cima, nem os que vêm de baixo. Para a maioria destes mortais, supostamente invenciveis, é apenas uma questão de sons graves. E o melhor é mesmo tapar os ouvidos



publicado por ensinartes às 23:58
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
As mulas, salvem as mulas

 

Nesse fabuloso e épico Western, daqueles a sério (7-oscars-7), chamado  “Danças com Lobos” de 1990, rodado a partir de um romance de Michael Blake, com Kevin kostner (actor e realizador) no seu melhor, uma das cenas que mais me impressionou, pela sua força e pelo seu realismo (poderia ter sido mesmo assim), é a da carroça, atacada pelos terríveis Sioux, reis e senhores das imensas pradarias do midwest norte-americano. Dela cai, sobre a erva alta, o condutor, crivado pelas certeiras flechas dos guerreiros “pássaro esperneante”, “vento no cabelo” e restantes compinchas.
No estertor da morte, tolhido pela dor, sem ter ainda percebido muito bem o que lhe tinha acontecido, o “cara pálida”, prestes a ser escalpelizado pela mão vingativa do índio, já não é de si que quer saber, mas sim das suas mulas: “My mules, save my mules...”. Sem dúvida, umas magníficas parelhas de mulas que puxavam a carroça caravaneira, diga-se de passagem.
Com o nosso país a afundar, o desvio da atenção política para as coisas fúteis, ou longínquas, tem o condão de nos desviar do essencial. Olhamos para as mulas reluzentes e esqueçamos as flechas que nos vão enfiando na pele. No ano que aí vem, inaugurando década imprevisível, salvemos pois as mulas. O resto logo se verá.

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publicado por ensinartes às 03:10
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
O Peixe...já se foi

O peixinho vermelho oferecido pelo primo Francisco já se foi. E já que estamos no vermelho, até o Benfica dá ares de também se "ir" antes do Natal. (Esperemos até dia 20)

Desconfiamos da água nova, da torneira, com que renovamos o habitat. Muita "lixívia"...ou cloro ou qualquer outro químico...daquilo que cada vez pagamos mais caro e que se vai tornar no negócio do século. Cai de borla lá do céu, vende-se, tendencialmente, a peso de ouro cá na terra. Melhor negócio não há.

 



publicado por ensinartes às 22:00
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O peso de uma catedral

O peso de uma catedral (Parte I)

 

O escritor francês Antoine de Saint-Exupery disse um dia que não dizemos nada de interessante sobre uma catedral se só falarmos de pedras.

Uma catedral, em especial, se tiver sido construída na idade média é um edificio notável, a todos os títulos. Quer na carga simbólica que tem, quer no arrojo de engenharia de que é, para mim, exemplo máximo (sim na idade média, a tal idade das trevas, havia uma engenharia de construção absolutamente espantosa).

 

O peso de uma catedral (Parte II)

 

Ontem, o execrável PM italiano levou literalmente com uma catedral em cima. Uma catedral em miniatura, recuerdo de turista. Foi a sua sorte. Depois de passar largos anos a vilipendiar e a insultar um sem número de pessoas decentes (nem o presidente Obama escapou, o "tal rapaz muito bronzeado", lembram-se!) soltando impropérios ao ritmo frenético de um motor Ferrari, em alta rotação, Silvio, que se considera o "uomo piu bello" de Itália, ficou com as trombas numa miséria, a julgar pelas imagens que a televisão levou a todo o mundo.

Espontaneamente, a turba mostrou a sua satisfação, e mais de 40 mil internautas aplaudiram o feito de um louco qualquer que lá teve os seus 15 minutos de fama. 

No que me toca, tive pena da criatura, encafuada na limousine. Jamais esquecerei o seu ar de animal acossado, impotente, terrivelmente assustado, tentanto perceber o que lhe tinha acontecido.

Teria preferido que tivesse levado um valente sopapo, com "aviso prévio", como mandam as regras de cavalaria, daqueles dados com punho carnudo fechado e  potência de locomotiva. Isso sim, teria sido mais romântico.

Agora, atirar-lhe com uma catedral. Santo Deus, a catedral merece mais respeito.



publicado por ensinartes às 21:16
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
Um remoinho na cabeça

Ora aí está a época...a tal do Natal

das compras, umas com sentido, outras.... (a maioria) sem sentido.

A minha pequenota fez seis anos e já teve uma espécie de Natal antecipado. Uma revoada de crianças remoinhou violentamente nos 136 metros quadrado do meu apartamento durante "intermináveis" horas. Os pais tiveram direito a um alívio pontual. A arquitectura apertada sobreviveu, mais ou menos incólume, (umas mãozadas de mousse na parede, do tipo pintura rupestre, palminhas bem abertas, coisa pouca face ao costume). Um ligeiro melaço no chão, o "tchak", a colar a sola dos sapatos, a esfregona...etc.

Sopro no bolo, com a inevitável bonecada em papel comestível, que alguém gosta sempre de comer. As prendas que transformam sempre os(as) aniversariantes em pequenos reis de circunstância.

Barbies e cabelos loiros de barbies, jazem pelo chão...abandonados à indiferença infantil, saciada. A prenda do primo Francisco: um peixe real num aquário azul fez a delícia da pequena. Um indício de gosto natural. Fico mais feliz do que ela.

O peixe vai ter uma vida de Lord, se não morrer de fartura ou congestão.

Ainda temos que dar um nome ao bichano.

A meio da festa tive que deitar dois sacos bem cheios de papéis de embrulho, fitas, embalagens...no contentor da rua.

Pensei nas inúmeras crianças que não têm com "que" brincar, e com "quem" brincar, naquelas que inventam os seus próprios brinquedos e naquelas que nem sequer chegam a viver o suficiente para poderem brincar. O mundo é um sítio lixado e nós pouco fazemos para o mudar, a não ser termos alguns rebates de consciência para uma mudança que achamos necessária. O que já é alguma coisa, mas não é tudo.

 

PS: A latinha da "papa" do peixe já está em lugar seguro, fora do alcance antropométrico infantil. Pois! 

 

Link que toca no tema do hiperconsumo

 

 

 http://www.youtube.com/watch?v=nhxf2Xg4xGc

 



publicado por ensinartes às 11:44
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Domingo, 8 de Novembro de 2009
Higiénicos e Integrados

Estreei, por fim, a nova aerogare da cidade condal.

Cheguei stressado a correr e nem cheguei a apreciar devidamente a obra.

Enquanto discutimos se fazemos ou não, "nosaltres amics catalans" fazem mesmo.

Regresso agora com mais calma, sempre muito adiantado ao tempo, não vá o diabo tecê-las.

"Voo para Lisboa, porta B52", nome de música, óptimo para recordar.

Deslizo a maleta pelo chão de impecável granito claro, depois de me assaltarem a carteira, com 5 euros e trinta cents por uma água mineral de 1/4 de litro e uma sanduiche, a saber a guardanapo. Sento-me nas cadeiras cinza e, no meu diário gráfico, traço uns riscos de um Airbus, lá fora, com uma peculiar decoração de cauda às bolinhas cor de cinza.

 

18h15, um gupo de turistas, asiáticos, chega pela dita porta, ar cansado, muitas horas de voo, seguramente.  Dóceis e disciplinados, como sempre. Imagem de marca.

Acto contínuo, o da frente, num gesto de liderança, vira-se para a fila e saca de uma protecção de rosto. O grupo repete o gesto e passa ordeira e pateticamente. Mascarados, nesta Europa crescentemente esquizofrénica.

 

 

 


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publicado por ensinartes às 22:48
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
A ministra da cultura

Uma das senhoras referidas do meu piropo, bem-intencionado diga-se de passagem, do post de 17 de Julho, é agora a ministra da cultura...critérios socráticos...muito "refinados", é o que eu acho.

 

Esperamos todos que faça melhor trabalho do que o seu antecedente, do qual já ninguém se lembra o nome, o que é sempre um mau sinal. Tinha um ar de banqueiro...sim, isso tinha.



publicado por ensinartes às 10:56
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Viva a Res pública

 

Ainda que quebre uma promessa do último post.
Um grupo de monárquicos marchou sobre a capital do império, embrulhados nas suas bandeiras azuis e brancas, de camisa alva, branquinha, impecavelmente engomada. Bravos portugueses. Quem sabe se brasonados!? Se marchassem de capa e espada e botas à d`Artacan…teriam mais estilo.
Em teoria, o futuro presidente (m/f) da República aqui a 50 anos, poderá estar a nascer hoje, não herdará o poder, ganhá-lo-á pelo seu mérito de gerar consenso em milhões de pessoas à volta das suas ideias e do seu carácter e isso, “camisinhas”, demorou 4 milhões de anos a obter…depois de muito sangue e de muito suor.
Viva a República
 


publicado por ensinartes às 00:23
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Definição de Voto

Entalado pela crise e... ... por duas eleições, o tema de hoje é o voto.

Esta conheço-a há já alguns anos, vem no Dicionário do Diabo (nome sugestivo!) de Amboise Pierce e sempre a achei terrívelmente premonitória, para mal dos nossos pecados. Diz mais ou menos assim:

 

(Definição de Voto): "Faculdade que o homem livre tem de fazer de si próprio um tonto e do seu país uma ruína".

 

Como muitos leitores, por vezes, sinto-me assim...um bocadinho tonto, que é uma forma mais menos suave que o nosso portugês tem para amenizar o adjectivo "estúpido". Ah doce e amada língua.
 
 
Desta vez votei nos perdedores...o que disfarça um pouco aquela sensação....de tonto, porque da ruína parece que não nos livramos tão depressa.
 
Assim se quisermos "votar em consciência" teremos que nos livrar de votar nos supeitos do costume, caso contrário, cairemos na malha fina que junta, em molho informe, todos os tontos deste país. Uma tontaria maciça, sem salvação possível, liderada por um tonto maior, que tem sido o que tem permitido que - 35 anos depois do 25 de Abril - caminhemos alegremente para a ruína.
 
PS: Nos próximos posts prometo que não me meto em política


publicado por ensinartes às 23:52
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