Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Salvattore

O monge corcunda do romance "O Nome da Rosa" de Umberto Eco foi a personagem que mais me marcou nessa famosa obra literária, passada magistralmente a cinema (1986) pelo realizador francês Jean-jacques Annaud. Chamava-se Salvattore, este monge corcunda, de dentição torta e aspecto asqueroso. Justificava-se " io stupido! Stupido!" e vivia à gosma de uma malga de sopa e de um bocado de pão, lá no mosteiro.

 

(ver resumo em http://tempore.blogspot.com/2006/01/o-nome-da-rosa.html)


Lembro-me bem do meu embaraço, perante as cenas quentes de outra personagem, o monge jovem com a menina ... ... nos aposentos vetustos daquele mosteiro, nesse filme, quando, no inicio da minha carreira docente, professor de História da Arte numa das escolas secundárias de Santarém, mostrava a película em VHS aos meus alunos (as), adolescentes, com as hormonas aos saltos. Queria, então como agora, praticar uma pedagogia inovadora e apelativa.

 

Queria motivar os meus alunos para o pensamento medieval e, concomitantemente,  para a arte medieval, da qual a cidade Santarém é um dos expoentes máximos no nosso país, no que diz  respeito à arquitectura. Recorria, para isso, a uma das manifestações artísticas mais importantes do século que já deixamos: o cinema.

 

Uns anos depois, sou interpelado nas ruas da cidade ribatejana por um jovem, o "Balau", arquitecto recém-diplomado, agradecendo o meu esforço realizado nessa arena em que está hoje transformada cada a sala de aula. Soube, em conversa curta, que outros ex-alunos se tinham formado, enquanto outros tinham rumado a Inglaterra, com carreiras de sucesso. Esse, foi dos raros momentos em que me senti realizado. Valeu apena o esforço e o "Nome da Rosa" foi só mais um elo na corrente com que nos amarramos e amarramos os outros às coisas do mundo.

 

Nos momentos em que escrevo este texto, Obama, presidente eleito da nação mais poderosa do mundo, passeia trinfalmente em Washington ao lado da sua bela esposa, à frente de um carro blindado-à-prova-de-tudo. Os americanos também são mesmo capazes de tudo. Até de por um homem na lua! Veio-me, estranhamente à memória (os insondáveis mistérios da mente humana)  esse episódio escalabitano e a cena do Salvattore. Obama aparece, claramente, no imaginário norte-americano (e europeu!), como o Salvador de um modelo civilizacional em crise.

É justo, pela esperança maciçamente depositada, que lhe demos o beneficio da dúvida e que, já agora, ao contrário do outro Salvattore, não seja "stupido" e não caia nas garras dos falcões da guerra. O mundo precisa de paz, muita paz.


publicado por ensinartes às 00:21
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