Domingo, 15 de Maio de 2011

Tupperware, tamanho XS

Entrei, por fim, pela Frei Universitat de Berlim adentro.

Mais uma experiência radical nas diásporas académicas a que gosto de me submeter.

O desafio do Deutsche sprache, dos rudimentos linguísticos que esperava aprender, do ambiente disciplinado germânico, atracções suficientes para a escolha da Universidade berlinense.

 

Estação de metro Dahlem Dorf. Edificio prata (silberlaube) metálico e quente, bem identificado entre o arvoredo luxuriante destas cercanias de Berlim.

No chão uma alcatifa vermelho vivo abafa os passos da estudantada. Nos corredores intermináveis e identificados com o sugestivo nome de "Strasse", houvem-se várias línguas nórdicas dificeis de identificar, outras mais familiares, como o francês e o inglês e, até, o portugês arrastado e aquecido dos trópicos, num casal de brasileiros que segue descontraidamente rumo à cantina da Universidade.

Não posso deixar de reparar nas muitas estudantes islâmicas, em regra, aos pares ou em pequenos grupos, bem identificadas pelos chador que recatam do olhar público essa parte do corpo humano - o cabelo - para alguns tão lasciva, para outros apenas ... bela.

 

São tão estranhas as culturas humanas, as suas religiões e as suas tradições que chocam com a modernidade a todo o instante.

Algumas jovens exibem maquilhagens cuidadas, lábios com baton carregado, outras tem piercings e molas nos chador com brilhantes, coraçõezinhos cor-de-rosa, Hello Kittys e outros ícones de infâncias recentes. Os lenços, cuidadosamente puxados para a frente, fazem uma espécie de pala sobre a testa. Outros, talvez mais ousados, deixam parte desta à mostra, dando mais realce ao rosto e aproximando-se dos usos ocidentais deste adereço - o lenço - que tende a ser cada vez mais raro nos preparos femininos.

Os padrões, com desenhos florais ou abstractos, são cheios e largos, escuros e tristonhos, em preto, ou azul escuro.

 

Sigo pelo corredor principal duas boas centenas de metros e volto para trás, atento a tudo, em exploração antropológica.

Cruzo o corredor principal e arrisco aleatoriamente pela Strasse 23, um corredor mais estreito e mais silencioso. Por cima das portas, pintadas de verde alface, os nomes dos professores.

Paro num pequeno hall onde se avista um dos inumeros retiros interiores ajardinados do imenso complexo arquitectónico. São uma espécie de claustros interiores a fazerem lembrar os da Universidade de Évora. Aprecio, por uma larga janela, a verdura, dois melros pousados num galho de uma árvore. Deve ser bom estudar num lugar assim.

 

No lado oposto ao janelame, duas das estudantes do chador, sentadas no chão, abrem envergonhadamente as suas mochilas e tiram dois pequenos tupperwares de plástico. Minúsculos, cabem numa mão. Não sei se serão motivos económicos, ou de dieta religiosa, o que levou estas duas estudantes a esta solução. Sinto que a minha presença as perturba e saio dali o mais rapidamente que posso imaginando como é dura a vida de (alguns) estudantes nestes tempos dificeis.

 

 

 

 

 

 


publicado por ensinartes às 23:52
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