Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Mirei-me "barroco"

Um voz deve ter um rosto, mas a maioria dos blogers refugia-se no anonimato visual

(acho bem!). Depois de muitas autofotografias, tiradas de bracinho bem esticado,

a Câmara Digital apontada para moi, com uma tela minha estratégicamente no fundo,

lá ecolhi uma que me desse um "ar" de "tipo muito esperto". Senti-me ligeiramente pateta nesse dia.

 

Mas um homem tem direito às suas horas de burro.Trabalhei a foto no photoshop

e pus um efeito espiralado no fundo, que mal se nota nos 40 k  da imagem, obrigatórios

de lei, nas regras draconianas deste patrão, o que torna as fotos liliputianas.

Hoje observei-me hedonisticamente no écran (bom..não é meu hábito) e achei-me uma personagem num quadro barroco de Tintoretto ou Veronese. Aquele dramatismo todo da pintura barroca,  tão cenográfica e.... tão artificial. E desatei a rir...juro. Parece-me saudável rirmo-nos de nós próprios, ainda que nos acusem de demência...ou outras coisas piores. 

 

Mas saibam os meus visitantes que estou de luto pela minha avó Jacinta Quitéria

("Abrasques" de alcunha, como é normal no universo rural). Uma amiga disse-me recentemente que quando vêmos partir o último dos avós, é que nos sentimos verdadeiramente sós no mundo. Acrescento ainda um sentimento enorme de responsabilidade...de estarmos à altura do nome, da memória e da enorme

dignidade dos velhinhos rurais, sempre tão sensatos, tão pacíficos, tão sábios,

mesmo sem saberem ler nem escrever, essas habilidades...do demónio.

Achamo-nos incapazes e frágeis ao vermos morrer um velhinho, por velhice, aquela

respiração aflita, ofegante, de gatinho atropelado...pelos muitos anos de vida.

E não podemos fazer nada.

Ali junto ao leito de morte dos nossos "antigos" é que temos a verdadeira noção

da nossa pequenez no mundo.

A minha avó Jacinta passou dos noventa, totalmente lúcidos, quase até ao fim.

Temos sempre um sentimento inexprimível das coisas que ficarão por dizer...

e do tempo malbaratado em coisas fúteis, quando os devíamos ouvir, com mais atenção.

Toda a atenção possível.

Mas a vida é mesmo assim, ironia e seriedade, alegria e tristeza, os opostos tocam-se

e, por vezes, atraem-se.

Da minha avó Jacinta irei recordar os olhos claros, lindos...e o carinho extremoso,

nas doses que me permitiram crescer, distribuidas igualmente por todos os seus netos, bisnetos...

e trinetos.

Reunir-nos-emos em luz, um dia....querida avó.

 


publicado por ensinartes às 23:54
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4 comentários:
De POP a 5 de Abril de 2008 às 00:01
Espero que entiendas mi español. Para mi el portugués es difícil y tu blog además, encima de lo chulo que lo tienes, es una manera de ir aprendiendo mejor el portugués.

Lo que planteas es un tema muy interesante. De hecho me lo pregunté en un doctorado hace poco y mandé una foto de perfil, bueno además había un chiste, porque dejé el original "Perfil del Autor" y yoi salía de perfil)... era una foto un poco rara y de noche. Me hace gracia cuando lo asocias al barroco y al tenebrismo, es cierto... jajaja.

Como bloggero, si tuviera que tener imagen, si algun nick me quisiera ver o conocer, primero le recomendaría esta web:

www.myspace.com/bateman206

donde se me ve en un grupo musical haciendo una especie de Emo-POP-Rock o simplemente emoruido con mis amigos. Una imagen de uno me molesta que estemos solos, me molesta estarlo.
Como no sé como enlazarlo a otro nudo - el de la representación expansiva - así estoy, pendiente o sin representación bloggera.


Un abrazo.


De Baudolino a 20 de Abril de 2008 às 15:43
Navegando neste seu espaço, cá vim encontrar um texto que me fez lembrar os meus avós. Quando csei, tinha três dos 4 avós vivos. Hoje não resta nenhum. Partiram em poucos anos, como se se fossem chamando uns aos outros. A verdade é que, enquanto um de nós estiver vivo... esles (aqueles que amamos) estarão connosco sempre.

Deixo-lhe um texto de José Luís Peixoto onde me revejo tantas vezes:

"na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viuva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco."



José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas




De Sónia Rosmaninho a 23 de Abril de 2008 às 22:23
Lindo o texto! E só tenho uma coisa a dizer, que apenas serve para reforçar a moral da história, acredito que as pessoas só morrem realmente quando quem as conhece deixa de pensar ou se lembrar delas...


De Sónia Rosmaninho a 23 de Abril de 2008 às 22:49
Volto a escrever, pois tenho de fazer uma rectificaçao ao meu comentário anterior, porque, por engano meu acabei por dar uma resposta ao texto errado...ou seja, o meu comentário anterior referia-se, particularmente, ao texto de José Luís Peixoto que Baudolino citou no seu comentário.
Fica aqui a rectificação.
Por outro lado, escrevo para enaltecer o texto intitulado "Mirei-me barroco", e para dizer que me tocou muito, porque me identifiquei com toda a situação descrita. A minha avó também faleceu à bem pouco tempo, a minha última avó...sinto com enorme força tudo aquilo que escreveu no texto, nada mais tenho para acrescentar, é isso, é tudo isso...é estranho, mas alguma inexplicável influência, a sua ida embora, teve em mim...algo mudou, tudo mudou, não sei, mas agora dou por mim a pensar noutras coisas, a questionar-me sobre elas, a seguir por determinados caminhos que nunca julguei seguir, caminhos...é estranho...mas talvez, esta proximidade da morte, como nunca antes tinha tido, não desta maneira, tenha despertado em mim sentimentos, questões, coisas que sinto necessidade como nunca de expressar, sinto-o agora...nunca o havia sentido antes, influênciou-me, transformou-me, e agora estou a seguir um caminho...não sei onde me vai levar, mas tenho de percorrê-lo, é uma necessidade mais forte que eu...nunca antes tinha sentido isto, mas influênciou-me na minha vida diária, e principalmente no meu trabalho, no que busco enquanto artista, que não sei se sou...mas sou pessoa, sou humana, e sinto...e agora digo, querida avó.


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