Terça-feira, 6 de Maio de 2008

O saco de berlindes

 

Não tendo conseguido fabricar uma “atiradeira” (ver abaixo post quase homónimo), dentro dos preceitos de robustez, eficácia e… segurança, que uma boa arma de arremesso deve ter, traído pela ansiedade, tinha prendido as borrachas à forca com lãs e o resultado já o relatei. Infelizmente, as boas bofetadas – e respectiva dor - não se comunicam via net, nem via texto, mas podem imaginar algo entre a picada de vespa irritada, mais larga, a apanhar a carita toda, uma espécie de aguardente no interior do nariz e um formidável formigueiro de pequeninas luzes a piscar e a deslocar-se em todas direcções. Como o fogo pirotécnico de Agosto, nas festas orgulhosas da Nossa Senhora da Glória.

 Mas se algumas características de personalidade me marcam, a teimosia (a minha costela alentejana!) e a persistência, serão seguramente as que melhor se me encaixam e estruturam. Andei quase um verão inteiro a “juntar” berlindes. Compravam-se, depois de muita choradeira, nas mercearias do Ti Rocha e do Ti Magriço. Aqui eram estrategicamente exibidas dentro de grandes frascos de vidro com uma enorme tampa por cima, alimentando as birras dos mais pequenos, para desespero das respectivas mães.

Cada berlinde tinha uma pequena haste saliente envolvida por um rebuçado, que era tragado em segundos, para logo depois se proceder à remoção da haste e ao desbaste da pequenina saliência restante no chão áspero de cimento da loja.

Com sorte e muitas idas a buscar leite, queijo de cabra e mais recados, talvez pudesse ter direito a dois berlindes por semana. Julgo que custavam um tostão, nos inícios dos anos setenta. Era uma moedinha de cobre que escurecia com o uso, quase até ao negro, com um diâmetro muito igual às actuais moedas de dois cêntimos de Euro. As omnipotentes cinco quinas, com as chagas de Cristo, num lado e, no outro, umas folhas de oliveira, essa árvore tão mediterrânica e tão sagrada.

 

Bom, lá “comprei” uma fisga a um dos camaradas da “meia” geração seguinte. Lembro-me muito bem que me custou um saco de berlindes, um custo elevado na ingénua economia de troca infantil. Uma economia afectiva. Vinte e quatro ao todo. Contados três vezes! Fechado o negócio, lá dei, com muita pena e alguma indecisão, o meu saquinho de berlindes, recebendo em troca a “temível”.

Andei umas noites a pensar se tinha feito bom negócio, ou não. Nesse verão ainda recuperei alguns, pois no jogo do berlinde tinha o meu dedinho certeiro. Mas o jogo do berlinde sempre me pareceu muito sedentário das sombras, largos e ruazinhas da aldeia.

Já a fisga impelia-me para as periferias da charneca, para os chaparrais e salgueirais do ribeiro sabadoiro, que hoje já não tem água. Estes pastos e estes cheiros tão opostos, da verdura de Maio e da secura de Agosto, foram e são ainda, verdadeiramente, os aromas inesquecíveis da minha terra. Entraram-me pelas narinas, pelo corpo e pela alma.

Bolas! Dei-me agora conta que este ano nem tive tempo para ir aos espargos.


publicado por ensinartes às 02:31
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1 comentário:
De desbravador de trilhos a 18 de Maio de 2008 às 01:18
Olá Leonardo!

Mas que post delicioso. Fantástico. Continua a escrever assim porque vale mesmo a pena!

Um abraço!

PS: Quando voltamos a pedalar?



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